Porque votamos na Dilma!

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Lucas Linhares

O operário-presidente – apesar das disposições elitistas em contrário, que insistem em ridicularizá-lo – pauta seu período no poder maior da República por um repertório vasto de inteligentíssimas considerações. Claro que sua história como presidente também nos oferece deslizes e infelizes boquirrotices. É inegável, contudo, que Lula, além de um país mais promissor, cultural e economicamente mais pujante, deixa também como legado uma série de análises episódicas muito lúcidas sobre momentos específicos destes últimos oito anos.

Em suas metáforas anedóticas, rotulou a oposição como “o ex-marido que não quer ver a ex-mulher ser feliz com outro” e disse que a crise econômica que se abateu como “um tsunami” na maior parte do planeta, iria chegar ao Brasil com a intensidade singela de “uma marolinha”. Lula já foi classificado por intelectuais do quilate de Maria da Conceição Tavares como a maior inteligência “orgânica” que o Brasil já produziu. Evidente que isso não é gratuito. Quando da referida crise de 2008, entonando uma mescla de keynesianismo popular com a constatação marxista de uma profecia auto-realizável, incitou a massa ao consumo para que a economia não parasse de girar. Seu discurso persuasivo, aliado aos incentivos microeconômicos adequados, nos fez surfar na marolinha.

Aproximando estas despretensiosas e enroladas linhas de seu objeto final, vamos nos deter apenas nestes últimos e muito feios tempos de campanha. Desde o início Lula denunciou com veemência o preconceito que estava sendo projetado sobre a candidata por ele indicada e apoiada. Ao final, presidenta já eleita, vaticinou: Serra sai menor dessa campanha. Disse o óbvio e gerou reações as mais raivosas.

José Serra, como de resto toda a oposição, saem sim apequenados e precisam se reestruturar. A campanha tucana adotou a estratégia perversa de despertar na sociedade brasileira os preconceitos mais recônditos. Uma sociedade que visivelmente se moderniza em seus valores culturais e materiais foi instada pela campanha tucana a olhar para trás. Uma sociedade que claramente segue uma dinâmica de integração foi convidada a fincar pés em idéias e perspectivas de tempos idos, em que o nome e o sangue, o lugar e o santo, apartavam as pessoas e mantinham fechadas as portas principais, enquanto a maioria via da janela o mundo de oportunidades passar ao longe.

José Serra já foi homem grande, foi pau que nasceu torto e se endireitou. Claro, no pior sentido que essa expressão pode assumir. E cá estou me eximindo de afirmar que a direita é, a priori, pior que a esquerda; embora eu evidentemente me identifique com esta e não com aquela. Respeito uma direita que enxerga um caminho diferente para construção de uma sociedade diferente daquela com que eu sonho. O que eu não posso e não consigo respeitar é uma perspectiva política que atribui a Lula uma cisão social classista que supostamente dividiu o país entre ricos e pobres, sulistas e nordestinos, ou coisa que o valha. Ora, José, foi você! Ora, José, foi você que, uma vez convertido e passado a religioso-fervoroso-beijador-de-santos, incitou à discórdia. Foi você que antes apoiou o aborto de Mônica e agora pariu Mayara Petruso. Ora, José, você já foi homem grande. Ora, José, você já foi homem digno. E agora, José? A luz apagou. A noite esfriou. Sozinho no escuro. Sem cavalo (e sem Paulo) preto. Vendeu a mãe e o bonde não veio. O dia não veio. Quis ir a Minas. Minas já não havia. Tudo mofou. Sua incoerência. Seu ódio. E agora José, para onde?

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  • Comentários desativados em A vitória de Dilma e a falsa tese do “país dividido”

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http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/a_vitoria_de_dilma_e_a_falsa_tese_do_pais_dividido.php

Nem bem contada estava a maior parte dos 55.752.529 votos recebidos por Dilma Rousseff e um insidioso meme começava a circular pelos meios de comunicação brasileiros, especialmente pela Rede Globo de Televisão. Parece que não entendiam, ou se recusavam a entender, o momento histórico que vivíamos. Trata-se da cantilena do “país dividido”, reforçada por um enganoso mapa em que o Brasil aparecia separado entre estados azuis e vermelhos. Acompanhado por uma série de bizarras declarações de figuras como W. Waack (“a imprensa criou o mito de Lula e ele se voltou contra ela, ingrato”) ou do inacreditável Merval Pereira (“Dilma deve saber que a oposição teve uma votação muito alta”), o mapa cumpriu o papel de sugerir uma divisão que absolutamente não existe: Dilma venceu com larga margem (12%), que em qualquer democracia presidencialista qualificaria como umsacode-Iaiá. Basta lembrar que na categórica vitória de Obama sobre McCain a diferença foi 52,9% a 45,7%, pouco mais da metade, portanto, da diferença imposta por Dilma a Serra.

Como apontou Alexandre Nodari no seu Twitter, a divisão por estados peca por impor ao Brasil um modelo que é essencialmente estadunidense, baseado no princípio de que o candidato vencedor num determinado estado leva todos os seus votos a um Colégio Eleitoral, numa eleição que é, para todos os efeitos, indireta. No Brasil, como se sabe, o presidente é eleito por sufrágio universal, e nele a ideia de estados “vermelhos” e “azuis” não faz o menor sentido. O mapa do Estadão, colorido por municípios e com várias gradações de azul e vermelho, esse sim, serve a um estudo sério, já iniciado pelo Fabricio Vasselai.

A ideia dos estados azuis e vermelhos faz menos sentido ainda depois de estudado o mapa eleitoral do pleito de 2010. A grande maioria dos estados que aparecem em azul no “país dividido” da TV Globo são unidades da federação em que Serra venceu por mínima diferença: Goiás (50,7%), Rio Grande do Sul (50,9%), Espírito Santo (50,8%), Mato Grosso (51,1%). Não se encontra, na coluna azul, nem rastro de um estado em que a vantagem se compare com a conquistada por Dilma em lugares como Amazonas (80%), Maranhão (79%), Ceará (77%), Pernambuco (75%), Bahia (70%), Piauí (69%) e vários outros. Num país com eleição por sufrágio universal e uma diferença tão acachapante entre os estados “dilmistas” e os “serristas”, só com muita desonestidade intelectual você colore alguns estados de azul e outros de vermelho, sem variação no tom das cores, para apresentar um país “dividido”.

Se a tese do país dividido não tem fundamento, menos ainda o tem a tese do país dividido entre Sul / Sudeste, por um lado, e o Norte / Nordeste, por outro. Não custa lembrar, mas essa divisão grita em desacordo com os fatos: Dilma enfiou goleadas acachapantes em Serra no Rio de Janeiro (60,5% x 39,5%) e Minas Gerais (58,5 x 41,5), além conquistar um empate no Rio Grande do Sul. Não custa lembrar aos jornalistas da Globo: Dilma Rousseff venceu as eleições no Sudeste, caso o fato tenha passado despercebido no Jardim Botânico.

Já na segunda-feira, a mídia brasileira havia conseguido insuflar uma onda divisionista que não demorou em encontrar solo fértil no nosso bom e velho racismo latente. No Twitter, proliferava o discurso do ódio aos nordestinos, desinformado até mesmo do básico dado de que Dilma teria ganho eleiçãomesmo se o Brasil não incluísse o Nordeste. Aludindo de forma desonesta ao “fato” que ela mesma havia ajudado a criar, a Globo relatava que havia um “embate” entre regiões do Brasil nas redes sociais, quando na verdade o único embate se deu entre a sanidade e uma minoria racista e ressentida. Começa mal, muito mal a Vênus Platinada, talvez como consequência do que aconteceu nesta eleição histórica: Dilma venceu o pleito com o debate da Band, desmontou a última armação com um vídeo do SBT e concedeu sua primeira entrevista à Record.

Sinais dos tempos.

 

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Para governos “desalinhados” do continente e para as classes sociais que os levaram ao poder, as eleições no Brasil foram um sinal de esperança 


As eleições no Brasil tiveram uma importância internacional inusitada. As razões diferem consoante a perspectiva geopolítica que se adote. Vistas da Europa, as eleições tiveram significado especial para os partidos de esquerda. A Europa vive uma grave crise, que ameaça liquidar o núcleo duro da sua identidade: o modelo social europeu e a social-democracia. Apesar de estarmos diante de realidades sociológicas distintas, o Brasil ergueu nos últimos oito anos a bandeira da social-democracia e reduziu significativamente a pobreza. Fê-lo reivindicando a especificidade do seu modelo, mas fundando-o na mesma ideia básica de combinar aumentos de produtividade econômica com aumentos de proteção social. Para os partidos que, na Europa, lutam pela reforma do modelo social, mas não por seu abandono, as eleições no Brasil vieram trazer um pouco mais de ar para respirar. No continente americano, as eleições no Brasil tiveram uma relevância sem precedentes. Duas perspectivas opostas se confrontaram. Para o governo dos EUA, o Brasil de Lula foi um parceiro relutante, desconcertante e, em última análise, não fiável. Combinou uma política econômica aceitável (ainda que criticável por não ter continuado o processo das privatizações) com uma política externa hostil. Para os EUA, é hostil toda política externa que não se alinhe integralmente com as decisões de Washington. Tudo começou logo no início do primeiro mandato de Lula, quando este decidiu fornecer meio milhão de barris de petróleo à Venezuela de Hugo Chávez, que nesse momento enfrentava uma greve do setor petroleiro, depois de ter sobrevivido a um golpe em que os EUA estiveram envolvidos. Tal ato significou um tropeço enorme na política americana de isolar o governo Chávez. Os anos seguintes vieram confirmar a pulsão autonomista do governo Lula. O Brasil manifestou-se veementemente contra o bloqueio a Cuba; criou relações de confiança com governos eleitos, mas considerados hostis -Bolívia e Equador-, e defendeu-os de tentativas de golpes da direita, em 2008 e em 2010. O país também promoveu formas de integração regional, tanto no plano econômico como no político e militar, à revelia dos EUA, e, ousadia das ousadias, procurou relacionamento independente com o governo “terrorista” do Irã. Na década passada, a guerra no Oriente Médio fez com que os EUA “abandonassem” a América Latina. Estão hoje de volta, e as formas de intervenção são mais diversificadas do que antes. Dão mais importância ao financiamento de organizações sociais, ambientais e religiosas com agendas que as afastem dos governos hostis a derrotar, como acaba de ser documentado nos casos da Bolívia e do Equador. O objetivo é sempre o mesmo: promover governos totalmente alinhados. E as recompensas pelo alinhamento total são hoje maiores que antes. A obsessão de Serra com o narcotráfico na Bolívia (um ator secundaríssimo) era o sinal do desejo de alinhamento. A visita de Hillary Clinton e a confirmação, pouco antes das eleições, de um embaixador duro (“falcão”), Thomas Shannon, são sinais evidentes da estratégia americana: um Brasil alinhado com Washington provocaria, como efeito dominó, a queda dos outros governos não alinhados do subcontinente. O projeto se mantém, mas, por agora, ficou adiado. A outra perspectiva sobre as eleições foi o reverso da anterior. Para os governos “desalinhados” do continente e para as classes e movimentos sociais que os levaram democraticamente ao poder, as eleições brasileiras foram um sinal de esperança: há espaço para política regional com algum grau de autonomia e para um novo tipo de nacionalismo, que aposta em mais redistribuição da riqueza coletiva.

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BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 69, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de “Para uma Revolução Democrática da Justiça” (Cortez, 2007).
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Carta aos amigos de militância na rua e na internet
Luiz Antonio Correia de carvalho, vulgo Luizão

Pronto: a candidata de Lula e do PT ganhou a eleição e o Brasil afastou de si um pouco mais o cálice maldito da alternância entre muitos copos de estagnação e alguns goles de crescimento, alguma inclusão e muita concentração, opressão irrespirável e alguma degustação democrática. Os compromissos assumidos por Dilma em seu primeiro pronunciamento mostram que Lula não lhe passou apenas o bastão, mas talvez o segredo mais íntimo de sua popularidade e, sobretudo, a receita de um novo Brasil, solidário, mas em nada parecido com a Venezuela ou a Bolívia. Parecido apenas, e cada vez menos, com o velho Brasil. Me explico.

Em recentíssima entrevista Lula recusou terminantemente a caracterização da nossa campanha eleitoral como sendo “dominada pela violência de parte a parte.” Fez bem, no seu modo brechtiano de atuar, ao insurgir-se mais uma vez contra as margens estreitas em que querem circunscrever nossas caudalosas esperanças. Gênio da raça, está certo em resistir ao esforço das antigas elites brasileiras de aparentar seu governo ao coriólico ou balcânico modelo que os bolivianos insistem em conjurar ou, menos ainda, ao incerto estilo venezuelano que, não se sabe por quanto tempo, continuará alimentando e educando bolivarianamente seus filhos mais pobres.
Em seu discurso, no melhor trejeito lulinha-paz-e-amor, abriu mão do seu tanto sou-mulher-mas-tambem-sei-gritar-e-acho-outra-coisa em favor da resiliente resistência dos materiais que, por bem absorver, ampliam suas propriedades: qual Lula em 2006 quando, acusado pela oposição de não prover crescimento, garantiu crescimento, em 2010, Dilma abre os trabalhos prometendo democracia, qualificação do servidor e rédeas no compadrio, responsabilidade fiscal, tudo para persistir bebendo no cálice da desconcentração e do desenvolvimento sustentável. A invés do exemplo falador e defensivo de Chávez, optou pelo estilo ouvidor-resiliente-carinhoso de Lula, contra o qual unem-se por vezes os eternos meninos dos PSTUs e espertos exterminadores catarinenses.

Parece ainda não ter aprendido a importância e o modo de explicar e reiterar, mas ouviu muito bem e viu em que isopor Lula esconde seu galo. E com a capacidade de superação que vem demonstrando, parece que conseguiu até do Merval um fôlego para respirar e retomar os trabalhos. Distinguiu-se da defensiva Marta e não disse que tudo vai bem na saúde. Humildemente, na educação, não insistiu na tese de que basta matricular e, já de olho nos novos critérios do IDH, bateu na tecla da qualidade e nos anos de escolaridade que faltam.

A falta de limites de Serra parece ter ajudado Dilma a superar os seus. Enquanto o belicoso discurso de Serra, que falou de trincheiras e fortalezas, resgatando de seu passado o que não deu certo, dormindo e comendo agora na mão de seus antigos adversários, hoje velhos amigos de todas horas, Dilma mostrou que a Venezuela não é aqui e que seus amigos são os de sempre: os que deram a vida pela liberdade e pela erradicação da miséria e da desigualdade. Ao contrario de Serra, muda de método e mantém o lado.

Quem quer a Venezuela para poder erradicar os amigos dos trabalhadores e do povo pobre e oprimido por reiterados hiatos que os bornhausens estimam em trinta anos, não é o PT dos bairros, das escolas e das fábricas ou o Lulinha que quer o Brasil no caminho da paz e do amor. Nós queremos a constituição e a lei garantida em cada pedaço do território. Queremos o eldorado para todos em Carajás. Queremos paz e progresso nas nossas rocinhas da cidade e do campo. Não temos medo de ser felizes numa democracia que dê direito de expressão a todos. Do contrário, teremos de suportar, porque não agüentamos o negro espetáculo da miséria, a armadilha chavista de futuro incerto, na qual quem aposta são os gladiadores do status quo latino americano, ad seculum seculorum.

Queremos leis e instituições fortes. Para todos. Com estas se combate melhor os malfeitos. Dizer, como disse o tautológico serra-novo-cavaleiro-do-apocalipse, que o decisivo é escolher quem saiba escolher, e voltar a engavetadores que não procuram, polícias que, por exangues, não policiam, interditar paulistanamente quaisquer CPIs, isto sim encaixa-se na caricatura chavista que dizem detestar, mas de que tanto precisam para perpetuar o velho Brasil. A saudável malícia de Lula, percebeu como ganhar do jogo deles. Qual Pelé, Garrincha, Romário agora na bancada e no palanque, Dilma recebeu a dica do caminho do gol, entre as pernas de mais um joão. E até o papa ficou vendo a banda passar alegre e feliz.

Muita gente bate no peito ao dizer que não vota no PT, por causa das acusações disseminadas pela mídia. Há também os que admitem ter sido um bom governo, mas dizem temer supostos atentados contra a democracia. Aos que se identificam com esses casos, proponho uma reflexão sobre uma importante instituição do sistema político e judicial brasileiro, o Ministério Público da União (MPU).

Quando entrei no MPU como estagiária em 2005, não imaginava encontrar, em uma instituição em que seus membros recebem quase 20 mil reais desde que ingressam, um ambiente de aprovação ao governo do PT. Afinal, boa parte dos meus amigos de colégio festeja quando o Lula comete um erro de Português, colegas de cursinho babam de rir quando um professor faz piada com o cabelo da Dilma e todos os outros meios de elite econômica que frequento também torcem o nariz quando alguém fala bem do governo do PT. Não é difícil entender porque no MPU o quadro era diferente.

O cargo mais alto da instituição, o de Procurador Geral da República (PGR), é ocupado por meio de nomeação do Presidente da República. Apesar de tal previsão legal, os membros do MPU realizam uma eleição interna e indicam ao Presidente aquele Procurador que entendem mais adequado para o exercício do cargo.

O respeito a essa eleição realizada pelos Procuradores de todo o Brasil é, obviamente, indispensável para que o PGR possa desempenhar suas funções com independência, dentre elas, a promoção da ação direta de inconstitucionalidade e das ações penais para denunciar autoridades como deputados federais, senadores, ministros de Estado e o próprio Presidente da República. Sem um PGR desatrelado do Presidente, a independência de todo o MPU fica comprometida e, consequentemente, suas funções investigatórias e processuais em matéria tributária, financeira, criminal e tantas outras deixam de ter o alcance que a democracia exige.

Felizmente, entre 2004 e 2010, já tivemos três diferentes PGRs, Cláudio Fonteles, Antonio Fernando e Roberto Santos, nomeados por Lula, sempre observando o resultado da votação realizada pelos demais membros do MPU. Infelizmente, entre 1995 e 2003, tivemos um único PGR, Geraldo Brindeiro, nomeado e reconduzido ao cargo por mais três vezes por Fernando Henrique, desrespeitando a vontade expressa pelos demais membros do MPU. Brindeiro ficou mais conhecido como o Engavetador ou Arquivador Geral da República.

O pouco apego a eleições democráticas por parte do PSDB também é notório nas universidades públicas. Na UFRJ, Fernando Henrique nomeou reitor o candidato que perdeu as eleições, José Vilhena, responsável por um mandato tão truculento que chegou mandar instalar uma porta de ferro em seu gabinete. Na USP, José Serra seguiu fielmente os passos de seu colega de partido, impondo na reitoria o candidato que havia perdido as eleições, José Rodas. O voto de toda uma comunidade acadêmica, professores, servidores e alunos, na lata do lixo com uma simples canetada.

Para encerrar o assunto, vale lembrar que o PT, com um governo que é avaliado como ótimo ou bom por mais de 80% dos brasileiros e que conta com maioria congressual, não fez qualquer movimento para alterar a Constituição e permitir uma nova reeleição à Presidência da República, preferindo o pleno respeito à democracia e lançando Dilma Roussef candidata, ao invés do mais carismático dos políticos do Brasil.

O PT contrariou os alarmes daqueles setores que já tentaram de tudo para enfraquecer a identificação dos eleitores com o partido, os mesmos setores que tentam desesperadamente criar intrigas às vésperas das eleições. Já o PSDB, com Fernando Henrique, fez aprovar a Emenda Constitucional da reeleição (EC 16/1997), da qual o próprio Fernando Henrique se aproveitou um ano depois, nas eleições presidenciais de 1998.

Pois é, mudaram as regras pouco antes de terminar o jogo, tal e qual a CBF em 1987.

Luanda, 26 anos, gosta de votar.

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  • Comentários desativados em 35. Mobilização. A gente vota Dilma! Com amigos e membros do blog.

Produzido por alunos da ECO/UFRJ

Meu caro Fernando,

Vejo-me na obrigação de responder a carta aberta que você dirigiu ao Lula, em nome de uma velha polêmica que você e o José Serra iniciaram em 1978 contra o Rui Mauro Marini, eu, André Gunder Frank e Vânia Bambirra, rompendo com um esforço teórico comum que iniciamos no Chile na segunda metade dos nos 1960. A discussão agora não é entre os cientistas sociais e sim a partir de uma experiência política que reflete com todo este debate teórico. Esta carta assimada por você como ex-presidente é uma defesa muito frágil teórica e politicamente de sua gestão. Quem a lê não pode compreender porque você saiu do governo com 23% de aprovação enquanto Lula deixa o seu governo com 96% de aprovação. Já discutimos em várias oportunidades os mitos que se criaram em torno dos chamados êxitos do seu governo. Já no seu governo vários estudiosos discutimos, já no começo do seu governo, o inevitável caminho de seu fracasso junto à maioria da população. Pois as premissas teóricas em que baseava sua ação política eram profundamente equivocadas e contraditórias com os interesses da maioria da população. (Se os leitores têm interesse de conhecer o debate sobre estas bases teóricas lhe recomendo meu livro já esgotado: Teoria da Dependencia: Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira, Rio, 2000).

Contudo nesta oportunidade me cabe concentrar-me nos mitos criados em torno do seu governo, os quais você repete exaustivamente nesta carta aberta.

O primeiro mito é de que seu governo foi um êxito econômico a partir do fortalecimento do real e que o governo Lula estaria apoiado neste êxito alcançando assim resultados positivos que não quer compartir com você… Em primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real que acabou com a inflação. Os dados mostram que até 1993 a economia mundial vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada pais apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário.

No caso brasileiro, a nossa inflação girou, durante todo seu governo, próxima dos 10% mais altos. TIVEMOS NO SEU GOVERNO UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES DO MUNDO. E aqui chegamos no outro mito incrível. Segundo você e seus seguidores (e até setores de oposição ao seu governo que acreditam neste mito) sua política econômica assegurou a transformação do real numa moeda forte. Ora Fernando, sejamos cordatos: chamar uma moeda que começou em 1994 valendo 0,85 centavos por dólar e mantendo um valor falso até 1998, quando o próprio FMI exigia uma desvalorização de pelo menos uns 40% e o seu ministro da economia recusou-se a realizá-la “pelo menos até as eleições”, indicando assim a época em que esta desvalorização viria e quando os capitais estrangeiros deveriam sair do país antes de sua desvalorização, O fato é que quando você flexibilizou o cambio o real se desvalorizou chegando até a 4,00 reais por dólar. E não venha por a culpa da “ameaça petista” pois esta desvalorização ocorreu muito antes da “ameaça Lula”. ORA, UMA MOEDA QUE SE DESVALORIZA 4 VEZES EM 8 ANOS PODE SER CONSIDERADA UMA MOEDA FORTE? Em que manual de economia? Que economista respeitável sustenta esta tese?

Conclusões: O plano real não derrubou a inflação e sim uma deflação mundial que fez cair as inflações no mundo inteiro. A inflação brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o seu governo. O real foi uma moeda drasticamente debilitada. Isto é evidente: quando nossa inflação esteve acima da inflação mundial por vários anos, nossa moeda tinha que ser altamente desvalorizada. De maneira suicida ela foi mantida artificialmente com um alto valor que levou à crise brutal de 1999.

Segundo mito; Segundo você, o seu governo foi um exemplo de rigor fiscal. Meu Deus: um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal? Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da humanidade.

E não adianta atribuir este endividamento colossal aos chamados “esqueletos” das dívidas dos estados, como o fez seu ministro de economia burlando a boa fé daqueles que preferiam não enfrentar a triste realidade de seu governo. UM GOVERNO QUE CHEGOU A PAGAR 50% AO ANO DE JUROS POR SEUS TÍTULOS, PARA EM SEGUIDA DEPOSITAR OS INVESTIMENTOS VINDOS DO EXTERIOR EM MOEDA FORTE A JUROS NORMAIS DE 3 A 4%, NÃO PODE FUGIR DO FATO DE QUE CRIOU UMA DÍVIDA COLOSSAL SÓ PARA ATRAIR CAPITAIS DO EXTERIOR PARA COBRIR OS DÉFICITS COMERCIAIS COLOSSAIS GERADOS POR UMA MOEDA SOBREVALORIZADA QUE IMPEDIA A EXPORTAÇÃO, AGRAVADA AINDA MAIS PELOS JUROS ABSURDOS QUE PAGAVA PARA COBRIR O DÉFICIT QUE GERAVA. Este nível de irresponsabilidade cambial se transforma em irresponsabilidade fiscal que o povo brasileiro pagou sob a forma de uma queda da renda de cada brasileiro pobre. Nem falar da brutal concentração de renda que esta política agravou dráticamente neste pais da maior concentração de renda no mundo. VERGONHA FERNANDO. MUITA VERGONHA. Baixa a cabeça e entenda porque nem seus companheiros de partido querem se identifica com o seu governo…te obrigando a sair sozinho nesta tarefa insana.

Terceiro mito – Segundo você, o Brasil tinha dificuldade de pagar sua dívida externa por causa da ameaça de um caos econômico que se esperava do governo Lula. Fernando, não brinca com a compreensão das pessoas. Em 1999 o Brasil tinha chegado à drástica situação de ter perdido TODAS AS SUAS DIVISAS. Você teve que pedir ajuda ao seu amigo Clinton que colocou à sua disposição ns 20 bilhões de dólares do tesouro dos Estados Unidos e mais uns 25 BILHÕES DE DÓLARES DO FMI, Banco Mundial e BID. Tudo isto sem nenhuma garantia.

Esperava-se aumentar as exportações do pais para gerar divisas para pagar esta dívida. O fracasso do setor exportador brasileiro mesmo com a espetacular desvalorização do real não permitiu juntar nenhum recurso em dólar para pagar a dívida. Não tem nada a ver com a ameaça de Lula. A ameaça de Lula existiu exatamente em conseqüência deste fracasso colossal de sua política macro-econômica. Sua política externa submissa aos interesses norte-americanos, apesar de algumas declarações críticas, ligava nossas exportações a uma economia decadente e um mercado já copado. A recusa dos seus neoliberais de promover uma política industrial na qual o Estado apoiava e orientava nossas exportações. A loucura do endividamento interno colossal. A impossibilidade de realizar inversões públicas apesar dos enormes recursos obtidos com a venda de uns 100 bilhões de dólares de empresas brasileiras. Os juros mais altos do mundo que inviabilizava e ainda inviabiliza a competitividade de qualquer empresa. Enfim, UM FRACASSO ECONOMICO ROTUNDO que se traduzia nos mais altos índices de risco do mundo, mesmo tratando-se de avaliadoras amigas. Uma dívida sem dinheiro para pagar… Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos. E o povo brasileiro correu tranquilamente o risco de eleger um torneiro mecânico e um partido de agitadores, segundo a avaliação de vocês, do que continuar a aventura econômica que você e seu partido criou para este pais.

Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não posso faze-lo nem no campo cultural para o qual foi chamado o nosso querido Francisco Weffort (neste então secretário geral do PT) e não criou um só museu, uma só campanha significativa. Que vergonha foi a comemoração dos 500 anos da “descoberta do Brasil”. E no plano educacional onde você não criou uma só universidade e entou em choque com a maioria dos professores universitários sucateados em seus salários e em seu prestígio profissional. Não Fernando, não posso reconhecer nada que não pudesse ser feito por um medíocre presidente.

Lamento muito o destino do Serra. Se ele não ganhar esta eleição vai ficar sem mandato, mas esta é a política. Vocês vão ter que revisar profundamente esta tentativa de encerrar a Era Vargas com a qual se identifica tão fortemente nosso povo. E terão que pensar que o capitalismo dependente que São Paulo construiu não é o que o povo brasileiro quer. E por mais que vocês tenham alcançado o domínio da imprensa brasileira, devido suas alianças internacionais e nacionais, está claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso povo. Vocês vão ficar na nossa história com um episódio de reação contra o vedadeiro progresso que Dilma nos promete aprofundar. Ela nos disse que a luta contra a desigualdade é o verdadeiro fundamento de uma política progressista. E dessa política vocês estão fora.

Apesar de tudo isto, me dá pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho tão equivocado, eu ainda gosto de vocês ( e tenho a melhor recordação de Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil. Como a grande maioria do povo brasileiro. Poderemos bater um papo inocente em algum congresso internacional se é que vocês algum dia voltarão a freqüentar este mundo dos intelectuais afastados das lides do poder.

Com a melhor disposição possível mas com amor à verdade, me despeço

Theotonio Dos Santos

thdossantos@terra.com.br, /theotoniodossantos.blogspot.com/

Theotonio Dos Santos é Professor Emérito da Universidade Federal Fluminense, Presidente da Cátedra da UNESCO e da Universidade das Nações Unidas sobre economia global e desenvolvimentos sustentável. Professor visitante nacional sênior da Universidade Federal do Rio de Janeiro.



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