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Nicolelis: Só no Brasil a educação é discutida por comentarista esportivo

Posted on: novembro 14, 2010

  • In: Educação e Universidade
  • Comentários desativados em Nicolelis: Só no Brasil a educação é discutida por comentarista esportivo

Link original: http://www.viomundo.com.br/entrevistas/nicolelis-so-no-brasil-educacao-e-discutida-por-comentarista-esportivo.html

Por Conceição Lemes
Desde o último final de semana, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e oMinistério da Educação (MEC) estão sob bombardeio midiático.

Estavam inscritos 4,6 milhões estudantes, e 3,4 milhões  submeteram-se àsprovas.  O exame foi aplicado em 1.698 cidades, 11.646 locais e 128.200salas.  Foram impressos 5 milhões de provas para o sábado e outros 5 milhõespara o domingo. Ou seja, o total de inscritos mais de 10% de reservatécnica.
No teste do sábado, ocorreram  dois erros  distintos.

Um foi assumido pela gráfica <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16016:grafica-assume-erro-de-impressao-no-caderno-de-cor-amarela-da-prova&catid=222&Itemid=86>* encarregada da impressão. Na montagem, algumas provas do caderno de cor amarela tiveram questões repetidas, ou numeradas incorretamente ou que faltaram. Cálculos preliminares do MEC indicavam que essa falha tinha afetado cerca de 2 mil alunos. Mas o balanço diário tem demonstrado, até agora, que são bem menos: aproximadamente 200.
O outro erro, de responsabilidade do Inep, foi no cabeçalho do cartão-resposta. Por falta de revisão adequada, inverteram-se os títulos. O de Ciências da Natureza apareceu no lugar de Ciências Humanas e vice-versa. Os fiscais de sala foram orientados a pedir aos alunos que preenchessem ocartão, de acordo com a numeração de cada questão, independentemente docabeçalho. Inep é o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, órgão doMEC encarregado de realizar o Enem.
“Nenhum aluno será prejudicado. Aqueles que tiveram problemas poderão fazera prova em outra data”, tem garantido desde o início o ministro da Educação,Fernando Haddad. “Isso é possível porque o Enem aplica  a teoria da respostaao item (TRI), que permite que exames feitos em ocasiões diferentes tenham omesmo grau de dificuldade.


Interesses poderosos, porém, amplificaram *ENORMEMENTE* os erros paradestruir a credibilidade do Enem. Afinal, a nota no exame é um doscomponentes utilizados em várias universidades públicas do país paraaprovação de candidatos, além de servir de avaliação parabolsa do PRO-UNI.
“Só os donos de cursinhos e aqueles que não querem a democratização doacesso à universidade podem ter algo contra o Enem”, afirma, indignado, ao *Viomundo* o neurocientista Miguel Nicolelis, professor da Universidade deDuke, nos EUA, e fundador do Instituto Internacional de Neurociências deNatal, no Rio Grande do Norte. “Eu vi a entrevista do ministro FernandoHaddad ao Bom Dia Brasil, TV Globo. Que loucura!  Como  jornalistas  que num dia falam de incêndio, no outro, de escola de samba, no outro, ainda, de esporte, podem se arvorar em discutir um assunto tão delicado como sistema educacional? Pior é que ainda se acham entendedores. Só no Brasil educação é discutida por comentarista esportivo!”
Nicolelis é um dos maiores neurocientistas do mundo. Vive há 20 anos nosEstados Unidos, onde há décadas existe o* SAT (standart admissionstest)<http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/sobre-psat-sat-e-os-criterios-das-universidades-nos-estados-unidos.html>*, que é muito parecido com o Enem. Tem três filhos. Os três já passarampelo Enem americano.
*Viomundo — De um total de 3,4 milhões de provas aplicadas no sábado, houve problema incontornável em menos de 2 mil. Tem sentido detonar o Enem, como amídia brasileira tem feito? E dizer que o Enem fracassou, como um ex-ministro da Educação anda alardeando?*
*Miguel Nicolelis* — Sinceramente, de jeito algum — nem um nem outro. O Enem é equivalente ao * SAT <http://www.collegeboard.com/>*, dos Estados Unidos.A metodologia usada nas provas é a mesma: a teoria de resposta ao item, ou TRI, que é uma tecnologia de fazer exames.  O SAT foi criado  em 1901.Curiosamente, em outubro de 2005, entre as milhões de provas impressas,algumas tinham problema na barra de códigos onde o teste vai  ser lido.  A entidade que  faz o exame não conseguiu controlar, porque esses erros podemacontecer.
*Viomundo — A Universidade de Duke utiliza o SAT?*
*Miguel Nicolelis* — Não só a Duke, mas todas as grandes universidadesamericanas reconhecem o SAT. É quase um consenso nos Estados Unidos. Apenasuma minoria é contra. E o Enem, insisto, é uma adaptação do SAT, que é umadas melhores maneiras de avaliação de conhecimento do mundo. O teste é amelhor  forma de avaliar uniformemente alunos submetidos a diferentesmetodologias de ensino. É a saída para homogeneizar a  avaliação deestudantes provenientes de um sistema federativo de educação, como oamericano e o brasileiro,  onde os graus de informação, os métodos, asformas como se dão, são diferentes.

*Viomundo — Qual a periodicidade do SAT?*
*Miguel Nicolelis* –  Aqui, o exame é aplicado sete vezes por ano. O aluno,se quiser, pode fazer três, quatro, cinco, até sete, desde que, claro, pague as provas. No final, apenas a melhor é computada. Vários estudos feitos aquijá demonstraram que o SAT é altamente correlacionado à capacidade mental geral da pessoa.
Todo ano as provas têm uma parte experimental. São questões que não contam nota para a prova. Servem apenas para testar o grau de dificuldade. Outropeculiaridade do sistema americano é a forma de corrigir a prova. Édesencorajado o chute.
*Viomundo — Explique melhor.*
*Miguel Nicolelis* — Resposta errada perde ponto, resposta em branco, não.Por isso, o aluno pensa muito antes de chutar, pois a probabilidade de ele errar é grande. Então se ele não sabe é preferível não responder do que correr o risco de responder errado.

*Viomundo –  Interessante …*
*Miguel Nicolelis *– Na verdade,  o SAT é  maneira  mais honesta, maisdemocrática de avaliar pessoas de  lugares diferentes, com sistemaseducacionais diferentes,  para tentar padronizar o ingresso. Aqui, nos EUA,a molecada faz o exame e manda para as faculdades que querem frequentar. Eas escolas decidem quem entra, quem não entra. O SAT é um dos componentespara essa avaliação.

*Viomundo — Aí tem cursinho para entrar na faculdade?*
*Miguel Nicoleli*s — Tem para as pessoas aprenderem a fazer o exame, mas não é aquela loucura da minha época. Era cheio de cursinho para todo lugar noBrasil. Cursinho  é uma máquina de fazer dinheiro.  Não serve para nada anão ser para fazer o exame. Por isso ouso dizer: só os donos de cursinho eaqueles que não querem democratizar o acesso à universidade podem ter algo contra o Enem.

*Viomundo –Mas o fato de a prova ter erros é ruim.*
*Miguel Nicolelis* — Concordo. Mas os erros vão acontecer.  Em 1978, quando fiz a Fuvest (vestibular unificado no Estado de São Paulo), teve pergunta eliminada, pois não tinha resposta.  Isso acontece desde o tempo em que havia exame para admissão [ao primeiro ginasial, atualmente 5ª série doensino fundamental)  na época das cavernas (risos). Você não tem exame 100%correto o tempo inteiro.
Então, algumas pessoas estão confundindo uma metodologia  bem estudada,bastante conhecida e aceita há décadas,   com problemas operacionais queacontecem em qualquer processo de impressão de milhões de documentos. Nadimensão em que aconteceram no Brasil está dentro das probabilidade defatalidades.
*Viomundo — Em 2009, também houve problema, lembra-se?*
*Miguel Nicolelis *– No ano passado foi um furto, foi um crime. O MEC nãopode ser condenado por causa de um assalto, que é uma contigência e nada tema ver com a metodologia do teste.
Só que, infelizmente, gerou problemas operacionais para algumasuniversidades, que não consideraram a nota do Enem nos seus vestibulares.Isso não quer dizer que elas não entendam ou nãoaceitam o teste. As provasdo Enem são muito mais democráticas, mais  racionais e mais bem-feitas doque os vestibulares de qualquer universidade brasileira.

Eu fiz a Fuvest. Naquela época, era muito ruim. Não media nada. E, aindaassim, a gente teve de se sujeitar àquilo, para entrar na faculdade aqualquer custo.

*Viomundo — Fez cursinho?*
*Miguel Nicolelis *– Não. Eu tive o privilégio de estudar numa escola privada boa. Mas muitas pessoas que não tinham educação de alto nível eram obrigadas a recorrer ao cursinho para competir em condições de igualdade.
Mas o cursinho não melhora o aprendizado de ninguém. Cursinho é uma técnica de aprender a maximizar a feitura do exame. É quase um efeito colateral dosistema educacional absurdo que  até recentemente tínhamos  no Brasil. É um arremedo. É um aborto do sistema educacional que não funciona.
*Viomundo — Qual a sua avaliação do Enem?*
*Miguel Nicolelis* — É um avanço tremendo, porque a longo prazo a repetição do Enem várias vezes por ano vai acabar com o estresse do vestibular. Você retira o estresse do vestibular. Na minha época, e isso acontece muito ainda hoje, o jovem passava os três anos esperando aquele “monstro”. De tal sorte,o vestibular transformava o colegial numa câmara de tortura. Uma pressãoinsuportável. Um  inferno tanto para os meninos e meninas quanto para asfamílias. Além disso,  um sistema humilhante, porque as pessoas que não podiam frequentar um colégio privado de alto nível sofriam com o complexo de não poder competir em pé de igualdade. Por isso os cursinhos floresceram e fizeram a riqueza de tanta gente, que agora está metendo o pau no Enem. Evidentemente  vários interesses estão sendo contrariados devido ao êxito doEnem.
*Viomundo — Tem muita gente pixando, mesmo.*
*Miguel Nicolelis -*- Todo esse pessoal que pixa acha que sabe do que estáfalando.  Só que não sabe de nada. Exame educacional não é  jogo de futebol.Tem metodologia, dados, história. E olha que eu adoro futebol. Sempre queestou no Brasil, vou ao estádio para assistir ao jogos do Palmeiras [*Ninguémé perfeito* (rs)!] O Brasil fez muito bem em entrar no Enem. É o único jeitode  acabar com esse escárnio, com essa ferida que é o vestibular .

*Viomundo — Nos EUA, não há vestibular para a universidade. O senhor achaque o Brasil seguirá essa tendência?*
*Miguel Nicolelis -*-  Acho que sim. O importante é o seguinte. O Brasil está tentando iniciar esse processo. Quando você inicia um processo dessamagnitude, com milhões fazendo exame,  é normal ter problemas operacionaisde percurso, problemas operacionais. Isso faz parte do processo.
Nós estamos caminhando para o Enem ser a moeda de troca da inclusãoeducacional. As crianças vão aprender que não é porque elas fazem cursinho famoso da Avenida Paulista que elas vão ter mais chance de entrar nauniversidade. Elas vão entrar na universidade pelo que elas acumularam conhecimento ao longo da vida acadêmica delas. Elas vão  poder demonstraresse conhecimento sem estresse, sem medo, sem complexo de inferioridade. Deuma maneira democrática.E, num futuro próximo, tanto as crianças de escolasprivadas quanto as  de escolas públicas vão começar a entrar nesse jogo  empé de igualdade. Aí,  sim vai virar jogo de futebol.
Futebol é uma das poucas coisas no Brasil em que o mérito é implacável. Jogaquem sabe jogar. Perna de pau não joga. Não tem espaço. O talento se impõe instantantaneamente.
Educação tem de ser a mesma coisa. O talento e a capacidade têm de aflorarnaturalmente e todas as pessoas têm de ter a chance de sentar na prova comas mesmas possibilidades.

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