Porque votamos na Dilma!

  • In: Educação e Universidade
  • Comentários desativados em Nicolelis: Só no Brasil a educação é discutida por comentarista esportivo

Link original: http://www.viomundo.com.br/entrevistas/nicolelis-so-no-brasil-educacao-e-discutida-por-comentarista-esportivo.html

Por Conceição Lemes
Desde o último final de semana, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e oMinistério da Educação (MEC) estão sob bombardeio midiático.

Estavam inscritos 4,6 milhões estudantes, e 3,4 milhões  submeteram-se àsprovas.  O exame foi aplicado em 1.698 cidades, 11.646 locais e 128.200salas.  Foram impressos 5 milhões de provas para o sábado e outros 5 milhõespara o domingo. Ou seja, o total de inscritos mais de 10% de reservatécnica.
No teste do sábado, ocorreram  dois erros  distintos.

Um foi assumido pela gráfica <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16016:grafica-assume-erro-de-impressao-no-caderno-de-cor-amarela-da-prova&catid=222&Itemid=86>* encarregada da impressão. Na montagem, algumas provas do caderno de cor amarela tiveram questões repetidas, ou numeradas incorretamente ou que faltaram. Cálculos preliminares do MEC indicavam que essa falha tinha afetado cerca de 2 mil alunos. Mas o balanço diário tem demonstrado, até agora, que são bem menos: aproximadamente 200.
O outro erro, de responsabilidade do Inep, foi no cabeçalho do cartão-resposta. Por falta de revisão adequada, inverteram-se os títulos. O de Ciências da Natureza apareceu no lugar de Ciências Humanas e vice-versa. Os fiscais de sala foram orientados a pedir aos alunos que preenchessem ocartão, de acordo com a numeração de cada questão, independentemente docabeçalho. Inep é o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, órgão doMEC encarregado de realizar o Enem.
“Nenhum aluno será prejudicado. Aqueles que tiveram problemas poderão fazera prova em outra data”, tem garantido desde o início o ministro da Educação,Fernando Haddad. “Isso é possível porque o Enem aplica  a teoria da respostaao item (TRI), que permite que exames feitos em ocasiões diferentes tenham omesmo grau de dificuldade.


Interesses poderosos, porém, amplificaram *ENORMEMENTE* os erros paradestruir a credibilidade do Enem. Afinal, a nota no exame é um doscomponentes utilizados em várias universidades públicas do país paraaprovação de candidatos, além de servir de avaliação parabolsa do PRO-UNI.
“Só os donos de cursinhos e aqueles que não querem a democratização doacesso à universidade podem ter algo contra o Enem”, afirma, indignado, ao *Viomundo* o neurocientista Miguel Nicolelis, professor da Universidade deDuke, nos EUA, e fundador do Instituto Internacional de Neurociências deNatal, no Rio Grande do Norte. “Eu vi a entrevista do ministro FernandoHaddad ao Bom Dia Brasil, TV Globo. Que loucura!  Como  jornalistas  que num dia falam de incêndio, no outro, de escola de samba, no outro, ainda, de esporte, podem se arvorar em discutir um assunto tão delicado como sistema educacional? Pior é que ainda se acham entendedores. Só no Brasil educação é discutida por comentarista esportivo!”
Nicolelis é um dos maiores neurocientistas do mundo. Vive há 20 anos nosEstados Unidos, onde há décadas existe o* SAT (standart admissionstest)<http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/sobre-psat-sat-e-os-criterios-das-universidades-nos-estados-unidos.html>*, que é muito parecido com o Enem. Tem três filhos. Os três já passarampelo Enem americano.
*Viomundo — De um total de 3,4 milhões de provas aplicadas no sábado, houve problema incontornável em menos de 2 mil. Tem sentido detonar o Enem, como amídia brasileira tem feito? E dizer que o Enem fracassou, como um ex-ministro da Educação anda alardeando?*
*Miguel Nicolelis* — Sinceramente, de jeito algum — nem um nem outro. O Enem é equivalente ao * SAT <http://www.collegeboard.com/>*, dos Estados Unidos.A metodologia usada nas provas é a mesma: a teoria de resposta ao item, ou TRI, que é uma tecnologia de fazer exames.  O SAT foi criado  em 1901.Curiosamente, em outubro de 2005, entre as milhões de provas impressas,algumas tinham problema na barra de códigos onde o teste vai  ser lido.  A entidade que  faz o exame não conseguiu controlar, porque esses erros podemacontecer.
*Viomundo — A Universidade de Duke utiliza o SAT?*
*Miguel Nicolelis* — Não só a Duke, mas todas as grandes universidadesamericanas reconhecem o SAT. É quase um consenso nos Estados Unidos. Apenasuma minoria é contra. E o Enem, insisto, é uma adaptação do SAT, que é umadas melhores maneiras de avaliação de conhecimento do mundo. O teste é amelhor  forma de avaliar uniformemente alunos submetidos a diferentesmetodologias de ensino. É a saída para homogeneizar a  avaliação deestudantes provenientes de um sistema federativo de educação, como oamericano e o brasileiro,  onde os graus de informação, os métodos, asformas como se dão, são diferentes.

*Viomundo — Qual a periodicidade do SAT?*
*Miguel Nicolelis* –  Aqui, o exame é aplicado sete vezes por ano. O aluno,se quiser, pode fazer três, quatro, cinco, até sete, desde que, claro, pague as provas. No final, apenas a melhor é computada. Vários estudos feitos aquijá demonstraram que o SAT é altamente correlacionado à capacidade mental geral da pessoa.
Todo ano as provas têm uma parte experimental. São questões que não contam nota para a prova. Servem apenas para testar o grau de dificuldade. Outropeculiaridade do sistema americano é a forma de corrigir a prova. Édesencorajado o chute.
*Viomundo — Explique melhor.*
*Miguel Nicolelis* — Resposta errada perde ponto, resposta em branco, não.Por isso, o aluno pensa muito antes de chutar, pois a probabilidade de ele errar é grande. Então se ele não sabe é preferível não responder do que correr o risco de responder errado.

*Viomundo –  Interessante …*
*Miguel Nicolelis *– Na verdade,  o SAT é  maneira  mais honesta, maisdemocrática de avaliar pessoas de  lugares diferentes, com sistemaseducacionais diferentes,  para tentar padronizar o ingresso. Aqui, nos EUA,a molecada faz o exame e manda para as faculdades que querem frequentar. Eas escolas decidem quem entra, quem não entra. O SAT é um dos componentespara essa avaliação.

*Viomundo — Aí tem cursinho para entrar na faculdade?*
*Miguel Nicoleli*s — Tem para as pessoas aprenderem a fazer o exame, mas não é aquela loucura da minha época. Era cheio de cursinho para todo lugar noBrasil. Cursinho  é uma máquina de fazer dinheiro.  Não serve para nada anão ser para fazer o exame. Por isso ouso dizer: só os donos de cursinho eaqueles que não querem democratizar o acesso à universidade podem ter algo contra o Enem.

*Viomundo –Mas o fato de a prova ter erros é ruim.*
*Miguel Nicolelis* — Concordo. Mas os erros vão acontecer.  Em 1978, quando fiz a Fuvest (vestibular unificado no Estado de São Paulo), teve pergunta eliminada, pois não tinha resposta.  Isso acontece desde o tempo em que havia exame para admissão [ao primeiro ginasial, atualmente 5ª série doensino fundamental)  na época das cavernas (risos). Você não tem exame 100%correto o tempo inteiro.
Então, algumas pessoas estão confundindo uma metodologia  bem estudada,bastante conhecida e aceita há décadas,   com problemas operacionais queacontecem em qualquer processo de impressão de milhões de documentos. Nadimensão em que aconteceram no Brasil está dentro das probabilidade defatalidades.
*Viomundo — Em 2009, também houve problema, lembra-se?*
*Miguel Nicolelis *– No ano passado foi um furto, foi um crime. O MEC nãopode ser condenado por causa de um assalto, que é uma contigência e nada tema ver com a metodologia do teste.
Só que, infelizmente, gerou problemas operacionais para algumasuniversidades, que não consideraram a nota do Enem nos seus vestibulares.Isso não quer dizer que elas não entendam ou nãoaceitam o teste. As provasdo Enem são muito mais democráticas, mais  racionais e mais bem-feitas doque os vestibulares de qualquer universidade brasileira.

Eu fiz a Fuvest. Naquela época, era muito ruim. Não media nada. E, aindaassim, a gente teve de se sujeitar àquilo, para entrar na faculdade aqualquer custo.

*Viomundo — Fez cursinho?*
*Miguel Nicolelis *– Não. Eu tive o privilégio de estudar numa escola privada boa. Mas muitas pessoas que não tinham educação de alto nível eram obrigadas a recorrer ao cursinho para competir em condições de igualdade.
Mas o cursinho não melhora o aprendizado de ninguém. Cursinho é uma técnica de aprender a maximizar a feitura do exame. É quase um efeito colateral dosistema educacional absurdo que  até recentemente tínhamos  no Brasil. É um arremedo. É um aborto do sistema educacional que não funciona.
*Viomundo — Qual a sua avaliação do Enem?*
*Miguel Nicolelis* — É um avanço tremendo, porque a longo prazo a repetição do Enem várias vezes por ano vai acabar com o estresse do vestibular. Você retira o estresse do vestibular. Na minha época, e isso acontece muito ainda hoje, o jovem passava os três anos esperando aquele “monstro”. De tal sorte,o vestibular transformava o colegial numa câmara de tortura. Uma pressãoinsuportável. Um  inferno tanto para os meninos e meninas quanto para asfamílias. Além disso,  um sistema humilhante, porque as pessoas que não podiam frequentar um colégio privado de alto nível sofriam com o complexo de não poder competir em pé de igualdade. Por isso os cursinhos floresceram e fizeram a riqueza de tanta gente, que agora está metendo o pau no Enem. Evidentemente  vários interesses estão sendo contrariados devido ao êxito doEnem.
*Viomundo — Tem muita gente pixando, mesmo.*
*Miguel Nicolelis -*- Todo esse pessoal que pixa acha que sabe do que estáfalando.  Só que não sabe de nada. Exame educacional não é  jogo de futebol.Tem metodologia, dados, história. E olha que eu adoro futebol. Sempre queestou no Brasil, vou ao estádio para assistir ao jogos do Palmeiras [*Ninguémé perfeito* (rs)!] O Brasil fez muito bem em entrar no Enem. É o único jeitode  acabar com esse escárnio, com essa ferida que é o vestibular .

*Viomundo — Nos EUA, não há vestibular para a universidade. O senhor achaque o Brasil seguirá essa tendência?*
*Miguel Nicolelis -*-  Acho que sim. O importante é o seguinte. O Brasil está tentando iniciar esse processo. Quando você inicia um processo dessamagnitude, com milhões fazendo exame,  é normal ter problemas operacionaisde percurso, problemas operacionais. Isso faz parte do processo.
Nós estamos caminhando para o Enem ser a moeda de troca da inclusãoeducacional. As crianças vão aprender que não é porque elas fazem cursinho famoso da Avenida Paulista que elas vão ter mais chance de entrar nauniversidade. Elas vão entrar na universidade pelo que elas acumularam conhecimento ao longo da vida acadêmica delas. Elas vão  poder demonstraresse conhecimento sem estresse, sem medo, sem complexo de inferioridade. Deuma maneira democrática.E, num futuro próximo, tanto as crianças de escolasprivadas quanto as  de escolas públicas vão começar a entrar nesse jogo  empé de igualdade. Aí,  sim vai virar jogo de futebol.
Futebol é uma das poucas coisas no Brasil em que o mérito é implacável. Jogaquem sabe jogar. Perna de pau não joga. Não tem espaço. O talento se impõe instantantaneamente.
Educação tem de ser a mesma coisa. O talento e a capacidade têm de aflorarnaturalmente e todas as pessoas têm de ter a chance de sentar na prova comas mesmas possibilidades.

  • In: Educação e Universidade
  • Comentários desativados em ENEM sofre ofensiva de interesses ligados à indústria do vestibular

Na avaliação do sociólogo e consultor na área de educação, Rudá Ricci (foto), há uma disputa de política educacional em curso, e é necessário preservar uma avaliação de caráter nacional. “Uma prova nacional permite que o país trace objetivos de política educacional”, defende. Entre os setores interessados economicamente, segundo ele, estão as próprias universidades, que arrecadam em matrículas, os professores que produzem questões fechadas e abertas, e os cursos preparatórios para o vetibular.

Anselmo Massad – Rede Brasil Atual

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual

São Paulo – O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) sofre uma ofensiva de interesses, segundo o sociólogo e consultor na área de educação Rudá Ricci. Ele enumera grupos e setores do que chama de “indústria do vestibular”, de cursos preparatórios a docentes encarregados de formular as provas. Para ele, há uma disputa de política educacional em curso, e é necessário preservar uma avaliação de caráter nacional.

“Uma prova nacional permite que o país trace objetivos de política educacional”, esclarece. Um vestibular nacional do ponto de vista da aplicação e do conteúdo promove um impacto no ensino médio, de modo a reverter problemas dessa faixa da educação.

Para ele, os vestibulares descentralizados, feitos por cada universidade, provocam danos à educação, já que o ensino médio e mesmo o fundamental direcionam-se às provas, e não à formação em sentido mais amplo. “O ensino médio é o maior problema da educação no Brasil, é o primeiro da lista, com mais evasão, em uma profunda falência”, sustenta.

“O Enem faz questões interdiciplinares, é absolutamente técnico, é super sofisticado”, elogia. Os méritos estariam em privilegiar o raciocínio à memorização de conteúdos. Isso permitiria que o ensino aplicado nas escolas fosse além do preparo para enfrentar provas de uma ou outra universidade.

O Enem traz uma “profunda revolução”, na visão de Rudá, “ao combater profundamente a concepção pedagógica e política de vestibulares por universidade”. Ao se aproximar dessa concepção nacional – fato que aconteceu apenas nos últimos anos –, interesses de grupos educacionais foram colocados em xeque, o que desperta ações contrárias.

Entre os setores interessados economicamente, segundo ele, estão as próprias universidades, que arrecadam em matrículas, os professores que produzem questões fechadas e abertas, e os cursos preparatórios para o vetibular.

Controle social
Ricci critica a postura do ex-ministro da Educação, Paulo Renato, e da ex-secretária de Educação de São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro. O sociólogo taxa os comentários feitos pelos especialistas ligados ao PSDB como “oportunismo”. Isso porque, segundo ele, o uso da prova como seleção e seu caráter nacional, hoje criticados pelos tucanos, foram objetivos perseguidos durante a gestão de Renato na pasta, de 1995 a 2002.

O que ele considera como mudança de postura é resultado da disputa política, que faz com que os estudantes passem a rejeitar o exame. “Os jovens não querem mais essa bagunça. E têm razão”, pontua.

“Existe uma movimentação para politizar esse tema; vamos ter o avanço de uma oposição organizada, que junta as forças políticas que perderam a eleição nacional com escolas particulares, cursinhos que têm muito interesse na manutenção do sistema de vestibular”, avalia.

O sociólogo defende o modelo de exame nacional, mas acredita que a fórmula possa ser aprimorada, seja com mais dias de provas, seja com provas aplicadas a cada ano do ensino médio. Ele aponta ainda que houve um desvirtuamento da proposta interdisciplinar e sofisticada, empregada originalmente, em função da necessidade de expandir a prova. Em 2010, foram 4,6 milhões de inscritos.

Ele acredita que a postura de críticas deve-se às diferenças partidárias. “Estão politizando o Enem, politizando o ingresso na universidade e o conteúdo da prova”, lamenta. “Seria interessante ter um órgão que execute o exame sob controle social, não de governo, nem de empresas”, sugere.

“A solução é nós discurtirmos nacionalmente esse gerenciamento em um modelo como o americano para o vestibular nacional”, defende. O SAT, usado como método de seleção nos Estados Unidos, é aplicado por agentes privados de modo controlado pelo departamento de educação federal. Além de poder ser aplicado em dias diferentes, cartas de recomendação de professores e outros instrumentos também são considerados na seleção por parte de universidades.

  • In: Sociedade
  • Comentários desativados em E agora, José…?

Lucas Linhares

O operário-presidente – apesar das disposições elitistas em contrário, que insistem em ridicularizá-lo – pauta seu período no poder maior da República por um repertório vasto de inteligentíssimas considerações. Claro que sua história como presidente também nos oferece deslizes e infelizes boquirrotices. É inegável, contudo, que Lula, além de um país mais promissor, cultural e economicamente mais pujante, deixa também como legado uma série de análises episódicas muito lúcidas sobre momentos específicos destes últimos oito anos.

Em suas metáforas anedóticas, rotulou a oposição como “o ex-marido que não quer ver a ex-mulher ser feliz com outro” e disse que a crise econômica que se abateu como “um tsunami” na maior parte do planeta, iria chegar ao Brasil com a intensidade singela de “uma marolinha”. Lula já foi classificado por intelectuais do quilate de Maria da Conceição Tavares como a maior inteligência “orgânica” que o Brasil já produziu. Evidente que isso não é gratuito. Quando da referida crise de 2008, entonando uma mescla de keynesianismo popular com a constatação marxista de uma profecia auto-realizável, incitou a massa ao consumo para que a economia não parasse de girar. Seu discurso persuasivo, aliado aos incentivos microeconômicos adequados, nos fez surfar na marolinha.

Aproximando estas despretensiosas e enroladas linhas de seu objeto final, vamos nos deter apenas nestes últimos e muito feios tempos de campanha. Desde o início Lula denunciou com veemência o preconceito que estava sendo projetado sobre a candidata por ele indicada e apoiada. Ao final, presidenta já eleita, vaticinou: Serra sai menor dessa campanha. Disse o óbvio e gerou reações as mais raivosas.

José Serra, como de resto toda a oposição, saem sim apequenados e precisam se reestruturar. A campanha tucana adotou a estratégia perversa de despertar na sociedade brasileira os preconceitos mais recônditos. Uma sociedade que visivelmente se moderniza em seus valores culturais e materiais foi instada pela campanha tucana a olhar para trás. Uma sociedade que claramente segue uma dinâmica de integração foi convidada a fincar pés em idéias e perspectivas de tempos idos, em que o nome e o sangue, o lugar e o santo, apartavam as pessoas e mantinham fechadas as portas principais, enquanto a maioria via da janela o mundo de oportunidades passar ao longe.

José Serra já foi homem grande, foi pau que nasceu torto e se endireitou. Claro, no pior sentido que essa expressão pode assumir. E cá estou me eximindo de afirmar que a direita é, a priori, pior que a esquerda; embora eu evidentemente me identifique com esta e não com aquela. Respeito uma direita que enxerga um caminho diferente para construção de uma sociedade diferente daquela com que eu sonho. O que eu não posso e não consigo respeitar é uma perspectiva política que atribui a Lula uma cisão social classista que supostamente dividiu o país entre ricos e pobres, sulistas e nordestinos, ou coisa que o valha. Ora, José, foi você! Ora, José, foi você que, uma vez convertido e passado a religioso-fervoroso-beijador-de-santos, incitou à discórdia. Foi você que antes apoiou o aborto de Mônica e agora pariu Mayara Petruso. Ora, José, você já foi homem grande. Ora, José, você já foi homem digno. E agora, José? A luz apagou. A noite esfriou. Sozinho no escuro. Sem cavalo (e sem Paulo) preto. Vendeu a mãe e o bonde não veio. O dia não veio. Quis ir a Minas. Minas já não havia. Tudo mofou. Sua incoerência. Seu ódio. E agora José, para onde?

  • In: Economia e Desenvolvimento
  • Comentários desativados em Ressaca de Campanha? Sobre IDH, tem gente que fala e entende o que quer.

A resposta que transparece já na 1ª semana pós-eleição é de que a ofensiva da imprensa continuará bem como o esforço de parte da sociedade de interpretar os fatos da forma mais conveniente a suas aspirações ideológicas. No dia seguinte à eleição de Dilma, o destaque dos jornais foi uma especulação sobre a candidatura de Lula em 2014. Da parte de certos comentaristas, o objetivo foi  provar de todas as maneiras que a oposição saíra vitoriosa do processo eleitoral (negando qualquer comprometimento com os ideários democráticos e republicanos).

Até aí estavam transitando no campo ideológico e astrológico.

A nova polêmica é quanto aos resultados do IDH, onde transparece o desconhecimento técnico da realidade ou tentativas de distorção dos fatos. Da parte dos eleitores45, há tímido movimento de euforia: “VIU? O Lula acabou com o Brasil com seu populismo descarado. Te falei!”. Não torcem pelo Brasil.

O foco das manchetes é: “Brasil está pior do que América Latina”. A partir daí, cada um entende da forma que quiser. Uns leem, outros não. A análise técnica dos fatos, explicita que o país avançou bastante mas ainda tem MUITO o que avançar. A herança secular do atraso precisa ser solucionada. Isto implica em aprofundar BASTANTE a priorização dada à educação e os investimentos em saneamento. Reflete o que vemos em outros números.

Não é motivo de comemoração. Mas é bom para renovar a esperança e a confiança.

Ao invés de expor minha análise, prefiro dar a vez ao conteúdo de uma das publicações. Do Estado de São Paulo, a avaliação sensata:

Brasil avança, mas é só 73º em desenvolvimento humano

“O Brasil foi o país que mais avançou no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) preparado pelo Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento (PNUD). No documento deste ano, divulgado hoje, o Brasil passa a ocupar a 73ª colocação, desempenho suficiente para que integre o grupo de países de desenvolvimento humano elevado. Apesar do crescimento, o País ainda apresenta traços importantes de desigualdade social. (….)

A alteração deste ano fez com que índices de vários países, incluindo o Brasil, despencassem em relação ao ano passado. “Mas esses são números que não podem ser comparados. A metodologia é outra, o padrão é outro. É como se estivéssemos usando uma nova régua”, compara Comim. (…)

São esses números que podem ser confrontados. E, por esse aspecto, o Brasil cresceu bastante. (..) ‘O País cresceu de forma harmônica em várias áreas. Não foi algo pontual’, analisa Comim. O que ainda amarra a colocação nacional é a qualidade da educação, avaliada pelo novo índice “anos de estudo esperados””, uma espécie de expectativa de vida educacional. Ao longo dos últimos cinco anos, o número de anos escolares esperado caiu de 14,5 para 13,8. (…)

Apesar da evolução durante o ano, o Brasil continua a exibir um IDH menor do que a média da América Latina e Caribe, que é de 0,704. A comparação com alguns países vizinhos também é desfavorável. A estimativa é de que um brasileiro viva menos 5,9 anos, tenha média de escolaridade 2,5 anos menor e consuma 28% menos do que uma pessoa nascida no Chile, o 45º no ranking. Outros países também apresentaram classificação melhor: Argentina (46º), Uruguai (52º), Panamá (54º), México (56º), Costa Rica (62º) e Peru (63º).

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-avanca-mas-e-so-73-em-desenvolvimento-humano,634584,0.htm

Por João Paulo Braga

  • In: Sociedade
  • Comentários desativados em A vitória de Dilma e a falsa tese do “país dividido”

Publicado em:

http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/a_vitoria_de_dilma_e_a_falsa_tese_do_pais_dividido.php

Nem bem contada estava a maior parte dos 55.752.529 votos recebidos por Dilma Rousseff e um insidioso meme começava a circular pelos meios de comunicação brasileiros, especialmente pela Rede Globo de Televisão. Parece que não entendiam, ou se recusavam a entender, o momento histórico que vivíamos. Trata-se da cantilena do “país dividido”, reforçada por um enganoso mapa em que o Brasil aparecia separado entre estados azuis e vermelhos. Acompanhado por uma série de bizarras declarações de figuras como W. Waack (“a imprensa criou o mito de Lula e ele se voltou contra ela, ingrato”) ou do inacreditável Merval Pereira (“Dilma deve saber que a oposição teve uma votação muito alta”), o mapa cumpriu o papel de sugerir uma divisão que absolutamente não existe: Dilma venceu com larga margem (12%), que em qualquer democracia presidencialista qualificaria como umsacode-Iaiá. Basta lembrar que na categórica vitória de Obama sobre McCain a diferença foi 52,9% a 45,7%, pouco mais da metade, portanto, da diferença imposta por Dilma a Serra.

Como apontou Alexandre Nodari no seu Twitter, a divisão por estados peca por impor ao Brasil um modelo que é essencialmente estadunidense, baseado no princípio de que o candidato vencedor num determinado estado leva todos os seus votos a um Colégio Eleitoral, numa eleição que é, para todos os efeitos, indireta. No Brasil, como se sabe, o presidente é eleito por sufrágio universal, e nele a ideia de estados “vermelhos” e “azuis” não faz o menor sentido. O mapa do Estadão, colorido por municípios e com várias gradações de azul e vermelho, esse sim, serve a um estudo sério, já iniciado pelo Fabricio Vasselai.

A ideia dos estados azuis e vermelhos faz menos sentido ainda depois de estudado o mapa eleitoral do pleito de 2010. A grande maioria dos estados que aparecem em azul no “país dividido” da TV Globo são unidades da federação em que Serra venceu por mínima diferença: Goiás (50,7%), Rio Grande do Sul (50,9%), Espírito Santo (50,8%), Mato Grosso (51,1%). Não se encontra, na coluna azul, nem rastro de um estado em que a vantagem se compare com a conquistada por Dilma em lugares como Amazonas (80%), Maranhão (79%), Ceará (77%), Pernambuco (75%), Bahia (70%), Piauí (69%) e vários outros. Num país com eleição por sufrágio universal e uma diferença tão acachapante entre os estados “dilmistas” e os “serristas”, só com muita desonestidade intelectual você colore alguns estados de azul e outros de vermelho, sem variação no tom das cores, para apresentar um país “dividido”.

Se a tese do país dividido não tem fundamento, menos ainda o tem a tese do país dividido entre Sul / Sudeste, por um lado, e o Norte / Nordeste, por outro. Não custa lembrar, mas essa divisão grita em desacordo com os fatos: Dilma enfiou goleadas acachapantes em Serra no Rio de Janeiro (60,5% x 39,5%) e Minas Gerais (58,5 x 41,5), além conquistar um empate no Rio Grande do Sul. Não custa lembrar aos jornalistas da Globo: Dilma Rousseff venceu as eleições no Sudeste, caso o fato tenha passado despercebido no Jardim Botânico.

Já na segunda-feira, a mídia brasileira havia conseguido insuflar uma onda divisionista que não demorou em encontrar solo fértil no nosso bom e velho racismo latente. No Twitter, proliferava o discurso do ódio aos nordestinos, desinformado até mesmo do básico dado de que Dilma teria ganho eleiçãomesmo se o Brasil não incluísse o Nordeste. Aludindo de forma desonesta ao “fato” que ela mesma havia ajudado a criar, a Globo relatava que havia um “embate” entre regiões do Brasil nas redes sociais, quando na verdade o único embate se deu entre a sanidade e uma minoria racista e ressentida. Começa mal, muito mal a Vênus Platinada, talvez como consequência do que aconteceu nesta eleição histórica: Dilma venceu o pleito com o debate da Band, desmontou a última armação com um vídeo do SBT e concedeu sua primeira entrevista à Record.

Sinais dos tempos.

 

  • In: Sociedade
  • Comentários desativados em Respirar é possível. Boaventura de Sousa Santos.

Para governos “desalinhados” do continente e para as classes sociais que os levaram ao poder, as eleições no Brasil foram um sinal de esperança 


As eleições no Brasil tiveram uma importância internacional inusitada. As razões diferem consoante a perspectiva geopolítica que se adote. Vistas da Europa, as eleições tiveram significado especial para os partidos de esquerda. A Europa vive uma grave crise, que ameaça liquidar o núcleo duro da sua identidade: o modelo social europeu e a social-democracia. Apesar de estarmos diante de realidades sociológicas distintas, o Brasil ergueu nos últimos oito anos a bandeira da social-democracia e reduziu significativamente a pobreza. Fê-lo reivindicando a especificidade do seu modelo, mas fundando-o na mesma ideia básica de combinar aumentos de produtividade econômica com aumentos de proteção social. Para os partidos que, na Europa, lutam pela reforma do modelo social, mas não por seu abandono, as eleições no Brasil vieram trazer um pouco mais de ar para respirar. No continente americano, as eleições no Brasil tiveram uma relevância sem precedentes. Duas perspectivas opostas se confrontaram. Para o governo dos EUA, o Brasil de Lula foi um parceiro relutante, desconcertante e, em última análise, não fiável. Combinou uma política econômica aceitável (ainda que criticável por não ter continuado o processo das privatizações) com uma política externa hostil. Para os EUA, é hostil toda política externa que não se alinhe integralmente com as decisões de Washington. Tudo começou logo no início do primeiro mandato de Lula, quando este decidiu fornecer meio milhão de barris de petróleo à Venezuela de Hugo Chávez, que nesse momento enfrentava uma greve do setor petroleiro, depois de ter sobrevivido a um golpe em que os EUA estiveram envolvidos. Tal ato significou um tropeço enorme na política americana de isolar o governo Chávez. Os anos seguintes vieram confirmar a pulsão autonomista do governo Lula. O Brasil manifestou-se veementemente contra o bloqueio a Cuba; criou relações de confiança com governos eleitos, mas considerados hostis -Bolívia e Equador-, e defendeu-os de tentativas de golpes da direita, em 2008 e em 2010. O país também promoveu formas de integração regional, tanto no plano econômico como no político e militar, à revelia dos EUA, e, ousadia das ousadias, procurou relacionamento independente com o governo “terrorista” do Irã. Na década passada, a guerra no Oriente Médio fez com que os EUA “abandonassem” a América Latina. Estão hoje de volta, e as formas de intervenção são mais diversificadas do que antes. Dão mais importância ao financiamento de organizações sociais, ambientais e religiosas com agendas que as afastem dos governos hostis a derrotar, como acaba de ser documentado nos casos da Bolívia e do Equador. O objetivo é sempre o mesmo: promover governos totalmente alinhados. E as recompensas pelo alinhamento total são hoje maiores que antes. A obsessão de Serra com o narcotráfico na Bolívia (um ator secundaríssimo) era o sinal do desejo de alinhamento. A visita de Hillary Clinton e a confirmação, pouco antes das eleições, de um embaixador duro (“falcão”), Thomas Shannon, são sinais evidentes da estratégia americana: um Brasil alinhado com Washington provocaria, como efeito dominó, a queda dos outros governos não alinhados do subcontinente. O projeto se mantém, mas, por agora, ficou adiado. A outra perspectiva sobre as eleições foi o reverso da anterior. Para os governos “desalinhados” do continente e para as classes e movimentos sociais que os levaram democraticamente ao poder, as eleições brasileiras foram um sinal de esperança: há espaço para política regional com algum grau de autonomia e para um novo tipo de nacionalismo, que aposta em mais redistribuição da riqueza coletiva.

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BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 69, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de “Para uma Revolução Democrática da Justiça” (Cortez, 2007).

Hoje às 22 horas haverá um Brasilianas Especial pela TV Brasil, entrevistando Marco Aurélio Garcia e José Eduardo Cardoso sobre as perspectivas da economia e da política para 2011.


  • Nenhum
  • João: Caro, Mildred. Obrigado pelo comentário. Os textos aqui publicados são baseados em nossas experiências e percepções da realidade. Para esta p
  • Mildred: Não tenho 'medo' de democracia, mas sim da HIPOCRISIA praticada pelo PT que sempre se colocou contra todos os erros e falcatruas do restante dos par
  • Leon Unger: Soi cineasta, o blog que inseri se refere ao filme atual que estou trabalhando. Mas con relação ao seu post, mesmo com os incentivos que existem pa